O guarda-roupa modernista
15 DE junho DE 2022
Crédito: Ana Alexandrino Para algumas pessoas, o ato de vestir-se é apenas uma forma de cobrir o corpo. Para outras, a roupa é um meio de comunicação com o mundo. Muito mais do que estar elegante ou acompanhar a moda da estação, as vestes são carregadas de simbolismo e dizem muito sobre a personalidade do usuário. Com o olhar de que uma roupa não é apenas uma roupa, Carolina Casarin, pesquisadora e professora da história do vestuário e da moda, ministra a oficina O guarda-roupa modernista, de 7 a 28 de junho, atividade que integra o projeto Literatura Brasileira no XXI, em parceria com a Unifesp.
Durante os quatro encontros virtuais, Carolina mostra, por meio do figurino usado por Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, a importância das roupas e da moda no percurso artístico e literário do casal durante os anos 1920, fase de consolidação do movimento modernista no Brasil. Logo na primeira aula, é reforçado o contexto de que a roupa não é necessariamente um artefato têxtil. “É qualquer mediação que o ser humano estabeleça entre o corpo e o mundo”, explica. Nessa perspectiva, o urucum que recobre o corpo de alguns povos indígenas deve ser considerado uma vestimenta, assim como as escarificações e as tatuagens.
Ao analisar os mais variados tipos de registros de Tarsiwald – apelido que Mário de Andrade deu ao casal – a professora mostra a relação deles com a alta-costura francesa, especialmente com a maison do estilista Paul Poiret. É importante destacar que quando aconteceu a Semana de Arte Moderna de 22, Tarsila estudava arte em Paris. Proveniente da alta elite paulistana, a pintora quando retornou ao país era considerada um grande modelo de modernidade, seja por meio da sua produção artística ou pelas roupas que usava.
A proposta da oficina é discutir em cada aula os trajes ícones da artista, como o vestido Écossais, usado em sua primeira exposição na Galeria Percier, em Paris, em 1926; o moderno vestido de noiva, feito a partir do traje de casamento da mãe do noivo; e o mantô vermelho presente em seu autorretrato. Ao lado de Tarsila, Oswald de Andrade tornou-se também um grande apreciador da alta-costura, indicando aos amigos os ateliês dos estilistas franceses Paul Poiret e Jean Patou. Para Carolina, “o guarda-roupa da Tarsila revela uma criatura ambiciosa e confiante que, ao valorizar a aparência e se vestir de modo suntuoso, investiu na consolidação do seu lugar de artista”.
Além de conversar sobre a moda nos anos 1920, a oficina propõe aos participantes por meio da produção textual um exercício de olhar para si e para a própria aparência de outra perspectiva, de forma mais delicada e atenciosa. “O corpo veste a roupa, mas não podemos nos esquecer de que do ponto de vista da roupa, é ela que veste o corpo”, destaca a professora.
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