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Segundas Intenções: Marçal Aquino fala sobre seu novo livro

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Marçal Aquino é escritor, jornalista e roteirista de cinema e televisão. Também já escreveu poesia, embora não se considere poeta, e dedicou uma fase da vida aos quadrinhos, deixados de lado, para abrir espaço maior à prosa. Na tentativa de explicar como produz literatura, diz que escreve com o cérebro, o coração e o fígado. E para ficar mais evidente o que isso significa, vai ao exemplo: “tem gente que come manga com garfo e faca. Eu sou da turma que se atraca com a manga”.

Em bate-papo, Marcal Aquino conta a Manuel da Costa Pinto sobre seu novo livro, a trajetória e a influências.

Em bate-papo, Marcal Aquino conta a Manuel da Costa Pinto sobre seu novo livro, a trajetória e a influências.

Convidado do Segundas Intenções de maio, Aquino contou durante o bate-papo com o jornalista Manuel da Costa Pinto sobre seu último romance “Baixo esplendor”, concluído na pandemia, e que acaba de ser publicado, após 16 anos do lançamento de “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” (2005) e de um profícuo período dedicado ao audiovisual, como autor de séries como “Carcereiros” e “Supermax” e de roteiros como “Os matadores” e “O cheiro do ralo”, para o cinema.

capaA narrativa de “Baixo esplendor” se passa em 1973, auge da ditadura militar e Miguel,  o personagem central, é um agente policial infiltrado em uma      quadrilha de ladrões de carga. Seus movimentos são calculados no sentido de ganhar a confiança do chefe deles, Ingo. Mas, em pouco tempo, entra em cena a libertária Nádia, irmã de Ingo, por quem Miguel se apaixona. O enredo envereda pelo submundo do crime, mergulha no pequeno universo particular de seus personagens e traz diversas referências da música brasileira da época de Roberto Carlos a Luiz Melodia e Tom Jobim. Paranoia e sexo são também combustível da ficção.

 

Voz e olhar afiados

Aquino nasceu na zona rural de Amparo, interior paulista. O pai trabalhava numa fazenda e estimulou seus dez filhos a estudarem. Seus irmãos mais velhos descobriram os quadrinhos – e ele, mesmo sem saber ler, já se familiarizava com aquela linguagem. Por volta dos 12 anos começou a aproximação de Monteiro Lobato e Tarzan – personagem com o qual preferiu conviver em livros ao invés de filmes ou quadrinhos. Ali começava a imaginar.

Entre os anos de 1973 a 1976, leu muito, sobretudo grandes contistas contemporâneos brasileiros. E entendeu que para escrever era preciso ler, ler, ler. “A grande oficina da literatura é o livro. No meio dessa polifonia tem um momento em que algo é seu”, diz o escritor, autor de 16 obras infantojuvenis e adultas, sempre envoltas em um ar policial, uma atmosfera noir, de crimes e submundo.

Por gostar de escrever, foi trabalhar no jornalismo. E mal sabia que a atividade de repórter policial exercida no Jornal da Tarde, entre 1986 e 1990, contribuiria com a sua literatura. Viveu diversas experiências, foi aos garimpos, viajou às fronteiras, fez entrevistas e aproximou-se de pessoas que praticavam atividades ilícitas e tudo isso se transformou no caldo literário. “Dizer que o que eu faço é literatura policial é redutor. Minha literatura vai a outros lugares”, diz ele, que recusa o título de poeta, embora tenha três livros no gênero.  Seja como romancista, seja contista, numa realidade pontiaguda, encontra-se uma poética minimalista dentro dos textos. Algumas obras têm títulos que são quase poemas como “O amor e outros objetos pontiagudos” (Prêmio Jabuti 2000). “Gosto de títulos longos – só acho que eles não devem ser maiores do que os livros”, brinca o autor também influenciado pela poesia marginal.

A serventia das crises

Antes de escrever seu primeiro romance, publicou o livro de poemas “Por bares nunca antes naufragados”. A experiência serviu para descobrir que a poesia, em seu caso, é um lugar onde afia a lâmina.

As crises que revelaram a Aquino que não tinha vocação para quadrinista nem poeta foram cruciais. Delas nasceu o prosador. “Não existe como se dedicar com o mesmo ímpeto à prosa e à poesia”, diz um escritor inquieto sempre em busca de encontrar sua voz narrativa.

É das histórias das pessoas que vem o seu impulso literário, dos momentos de extrema poesia que ocorrem no cotidiano. Ele conta que na rua há recados para ele: “vejo um mendigo cantando lixo na Liberdade e usando uma camiseta onde está escrito: gente é pra brilhar e anoto à mão em cadernos. É viagem pessoal. Depois passo para o computador”.

Mal saiu do forno o seu novo livro, Aquino já tem na cabeça o novo projeto ao qual irá se dedicar. Uma obra que deixou engavetada por algum tempo, “Felicidade genital” é uma sátira dos tempos coloniais.

A íntegra do bate-papo, você pode assistir no nosso canal no YouTube ou aqui.

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