Oficina de contos rende textos diversos

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A oficina de contos, comandada pela escritora Ivana Arruda Leite e que foi encerrada no início deste mês, resultou em vários textos. Quem participou contribuiu, em cada aula, com conteúdo analisado durante a atividade. Não foram poucos os temas sugeridos por Ivana, para estimular a criatividade de quem decidiu conhecer mais sobre essa forma de escrever. Confira, a seguir, alguns dos contos desenvolvidos por quem passou pela disputada oficina.

“Elementar – Texto de Maria Cristina Forni de Camargo

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Maravilhada, toco nas pedras. Alguns peixinhos se espalham depressa. Meus olhos extasiados tentam acompanhar alguns deles, somem de vista. Tudo se aquieta de novo, não faço mais qualquer movimento.  Procuro não mexer a cabeça. Só meus olhos arregalados vão de cá pra lá, de lá pra cá, e esse movimento parece produzir delicadas linhas sucessivas, quase ondas sutis. É só uma sensação, não seriam mesmo perceptíveis. Ou talvez fossem, nessa limpidez. Contemplo, fascinada, riscos de luz cortando a própria transparência, como se nela fosse possível haver gradações. Devem ser finos raios de sol que encontram passagem por entre galhos das copas que encobrem o espaço lá fora. Aqui, não há espaço ou tempo, e tudo é o meio. Meu elemento, meu mundo. Percebo o silêncio majestoso. Sou leveza e silêncio. Não estou submersa, estou inundada de felicidade.

Aqui, no lago! Ouvi o grito enquanto duas mãos enormes me levantavam violentamente. Os braços estendidos para o alto me deixaram em suspenso, como um troféu, a água escorrendo pelo meu pequenino corpo sobre a terra, o encantamento rompido. Choque, espanto, olhos ainda arregalados quando meus pais me tomaram em seus braços, em prantos, e só aí soltei meu pranto e meus olhos se inundaram porque me tomaram por salva quando estava era mergulhada em raiva e me afogando na tristeza.”

Zefa e seu chapeuzinho vermelho de trapos – Texto de Maria Vitória
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Era uma vez, uma solitária menina que morava com sua mãe num minúsculo quarto e cozinha, aos fundos de um conjunto habitacional. A menina sempre muito quieta e observadora, adorava brincar com sua capa e um chapeuzinho vermelho feitos de remendo de trapos.

Certo dia, sua mãe ordenou que ela fosse ao encontro de sua avó que residia do outro lado de um matagal e levasse para ela, uma pequena cesta com doces caramelizados e remédios de tarja preta.

– Ei, menina. Para de falar sozinha e corra já aqui. Preciso que você leve esta cesta para sua avó do outro lado do matagal, pois ela está muito debilitada e senil e não tem condições de sair de casa.

A pequena garota de olhos negros como piche, olhou para sua mãe com ar de desconfiada, porém, consentiu com a cabeça e saiu em disparada.

– Garota, cuidado para não se perder no meio do mato. E se alguém aparecer no caminho, só aperta o passo e vai embora. E outra coisa… Se você não voltar até o horário da janta, o coro vai comer, hein.

Zefa, a garota que todos haviam apelidado de chapeuzinho vermelho, caminhava apressadamente por entre árvores grandes e robustas, mato que não era capinado há anos, pedregulhos afiados, lixo e pássaros mortos que dificultavam trilhar o caminho.

De repente, um galho seco se quebra e Zefa arregala seus pequenos olhos negros, seu coração acelera como se fosse saltar pela boca e a suas costas uma voz rouca surge:

– Olá, garotinha.

Silêncio.

– Eu disse, olá, garotinha.

– Oi.

– Aonde você está indo assim tão apressada, não sabe que por essas bandas é perigoso a essas horas?

– Só estou de passagem. Vou visitar minha avó que mora do outro lado da mata.

– Sim, claro. Mas cuidado, viu, uma garota linda como você andando por aí sozinha não é nada seguro. Aliás, só tem maníaco por aí afora. Por um acaso, não é melhor que eu a acompanhe até a casa de sua avozinha?

– Não precisa. Tchau.

O homem ficou observando chapeuzinho partir com sua pequena cesta nas mãos. Seus olhos brilhavam e, sorrateiramente, ele esboçou um leve sorriso de satisfação. Ele esperou que ela o perdesse de vista e pegou um atalho para chegar mais rápido ao outro lado da mata. Chegando ao seu destino, tocou a campainha da velha casa que ficava no alto de um pequeno barranco. Tocou uma, duas, três vezes e nada. Como ninguém atendeu, imaginou que a velha já teria batido as botas mais cedo, então, deu a volta pelos fundos e pulou a janela.

– Que barulho foi esse. Quem está aí? – perguntou a velhinha.

O homem respondeu, disfarçando a voz:

– Sou eu, vó. Toquei a campainha três vezes e como você não ouviu, entrei pelos fundos.

– Oi, Zefa. Vem pra cá na cozinha, a vó tá aqui assando uma torta.

O homem entrou de manso na cozinha e avistou a velhinha de costas, retirando uma assadeira do forno. Rapidamente, ele passou um de seus braços ao redor do pescoço da indefesa senhora e a enforcou até que ela perdesse os sentidos. Foi até o quarto no final do corredor e vestiu a camisola, as meias e a touca que estavam sobre a cama e esperou até que a garota chegasse.

– Vó, por que suas orelhas estão tão cabeludas?

– É pra te ouvir melhor.

– Vó, por que esses olhos vermelhos?

– É pra te ver melhor.

– Nossa, vó… Por que a senhora está com a boca salivando?

– É pra te comer com mais vontade! – respondeu o homem.

Dizendo isto, o homem começou a correr atrás de chapeuzinho. A menina astuta foi mais rápida e conseguiu sair porta afora gritando por socorro. Por sorte, no mesmo instante um andarilho passava por ali, empunhando uma garrafa de bebida em uma das mãos e uma pistola na outra. Ouvindo os gritos da garota, ele foi a seu encontro cambaleante e tentou ajudá-la.

– O que aconteceu, pequena menina de trapos vermelhos?

– Um homem mau matou a minha avó na cozinha e agora está atrás de mim para me matar também.

O andarilho entrou de supetão dentro da casa e avistou o homem seminu, com uma faca grande ensanguentada procurando pela pequena garota. Sem pestanejar, disparou três tiros em sua direção, todos no peito. Zefa vira toda a cena de olhos fixos e arregalados. Não piscou uma vez se quer. A única coisa que passava por sua mente agora, eram as palavras de sua mãe que prometera surrá-la se ela não voltasse antes da janta para casa.

– Pronto, menina, esse maníaco aí já era. Nessa vida não atormenta mais ninguém.

– E minha avó? O que eu faço sem ela agora?

– Sua avó também andava seminua com uma faca ensanguentada por aí?

– Bom, eu acho que não.

– Então, não há nada mais a ser feito. Que o bom Deus a tenha.

Zefa derramou duas lágrimas. Apanhou a cesta perto da porta da sala e retirou de dentro os doces caramelizados. Botou de uma só vez, cinco cápsulas de Quetiapina na boca. Virou-se sentido ao norte da mata. Respirou de forma pesada. Lembrou-se da mãe. Caminhou vagarosamente noite adentro, deixando perder-se pelo caminho, sua pequena capa e seu chapeuzinho vermelho de trapos. Ao fundo, um uivo de lobo surge, enquanto a lua desponta, bem lá no alto.”

“Eis sua mulher. Eis o seu homem – Texto de Marcelo da Silva Antunes

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Jesus sempre soube do seu fim. A mãe falou aos treze, você vai morrer no mesmo dia em que nasceu. O pai profetizou: terás teu nome guardado.

O Babalorixá tratava de ser didático com ele sobre sua trajetória. Pegava na sua mão no escuro.  Afastou-se da religião e foi ser devoto de Madalena, mulher de flor na orelha, perfume de terra em dia de chuva, postura de rainha, não dava moral pra qualquer vagabundo. Jesus soube jogar o jogo, caiu nas graças da moça e formaram um casal de quebrar o queixo.  Com ela viveu dias incessantes de plumas. Foram flagrados fazendo amor debaixo de uma goiabeira. Foi ali que viu o gozo descer junto com as lágrimas. Casaram-se. Festa no terreiro.

Sua agonia perante a vida exigia dele postura. Do palanque pra rua, era ele quem desenrolava com os fiscais e agentes de saúde, era conversador, sabia levar.

Na morte da mãe enterrou a profecia, largou mão das responsabilidades e morou no sentimento por Madalena.

Honrou a memória da mãe até o fim, oferecendo cachaça e café nos ritos e feijoadas.

Tinha grande apreço por Matheus, amigo de capoeira, parceiro de futebol e um irmão, foram criados juntos no pedaço, empinavam pipas e dividiram as primeiras namoradas, Matheus foi o padrinho de casamento e Jesus prometeu seu primogênito pra ser batizado por ele.

Matheus tinha lugar marcado no sofá de Jesus, pedia conselhos, trocavam ideias e riam muito. Matheus perdeu a mãe muito cedo. Era bicho solto, tinha fraco pra mulher, não podia ver um rabo de saia. O velho parceiro de farra aconselhava o amigo, tens que encontrar uma mulher, cabra, construir tua família, o tempo avoa. Tu deu sorte com a Madalena, deixa eu curtir, cabra, rebatia o amigo.           .

Nas vésperas de seu trigésimo segundo aniversário recebeu a visita de uma entidade.

Lembra-se de mim, Jesus, teus dias tão findando, tá de olho aberto? Há de deixar muita coisa bagunçada, criatura? Do ano que vem não passarás.

Ele que não parava de falar, calou. No sexo da noite, não chorou depois do coito, chorou no colo de Madalena, emudeceu e respirou. Ela disse, vai ser papai homem.

Seu menino nasceu. Madalena e Matheus opinaram e escolheram José.

Sua missão estava completa.

Avisou Madalena que faria uma festa no seu aniversário, porém não convidaria muita gente, queria um jantar com Matheus, o bebê e ela.

Preparou uma mesa farta, fez a farinha de banana que ela adorava e temperou os peixes pro gosto de Matheus. Ninou o menino e saiu de bicicleta.

Chinelo e camisa listrada, igual havia visto nos olhos da entidade.

Jesus faltou no seu aniversário, mas teve festa.

No terceiro dia de sumiço, ele volta, todo vestido de branco, entra na casa de noite e se depara com Matheus dormindo na sala. Acorda Madalena e diz pros dois:

Madalena, eis o seu homem. Matheus, eis a sua mulher.”

Quem quiser conferir com foi a oficina pode acessar https://bvl.org.br/todo-mundo-guarda-historias-em-si/ .

Fique ligado em nossa programação, pois novas atividades como a oficina de contos virão, aqui, na BVL. Ivana Arruda Leite estará comandando uma no Centro Cultural e de Estudos Superiores Aúthos Pagano em julho. Confira os detalhes em https://centroculturalauthospagano.org.br/oficina-de-contos-com-ivana-arruda-tem-inscricoes-abertas/

 

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