Uma Agatha Christie diferente

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Em O homem do terno marrom, publicado pela primeira vez em 1924, Agatha Christie descreve aquilo que a grande maioria das pessoas sente ao surfar.

“Depois do almoço coloquei o meu melhor chapéu e o meu vestido de linho branco menos enrugado e lá fui. Apanhei um comboio rápido para Muizenberg e cheguei lá em cerca de meia hora. Foi uma viagem agradável. Contornamos lentamente o sopé de Table Mountain e algumas das flores eram muito bonitas. Como os meus conhecimentos de geografia eram fracos, nunca tinha percebido de que a Cidade do Cabo estava numa península e, por isso, fiquei muito surpreendia quando saí do comboio e me encontrei outra vez ao pé do mar. Havia pessoas a tomar banho, o que me encantou. Tinham pequenas pranchas curvas com as quais deslizavam sobre as ondas. Ainda era muito cedo para o chá. Fui até ao pavilhão de banhos e, quando me perguntaram se queria uma prancha, disse-lhes: ‘Sim, por favor’. O surf parece ser muito fácil. Mas não é. E não digo mais. Fiquei furibunda e praticamente atirei a prancha para longe. Contudo, decidi que voltaria na primeira oportunidade para tentar de novo. Não me dava por vencida. Por engano, acabei por dar mais uma volta na prancha e fiquei felicíssima. O surf é assim. Ou ficamos furiosamente a praguejar ou totalmente satisfeitos com nós próprios.”

É assim que a escritora, uma das mais vendidas do mundo, relata como foi sua experiência no surf.

E não é só! Quando se pensa em Agatha Christie, vem à mente a imagem de Miss Marple, sua heroína senhorinha de cabelos grisalhos, certo?

Anna Farthing, diretora do Festival Internacional Agatha Christie, que acontecerá em setembro, em Torquay, no sul da Inglaterra, em homenagem aos 125 anos de nascimento da escritora, não quer mais que seja esta a imagem que o mundo tem de Agatha. Ela está emprenhada em reescrever a sua história.

A vida da autora se parece com a de muitas mulheres. Ela pode até ter nascido no conforto da classe média, mas ela era uma trabalhadora, mãe solteira que enfrentou traições e desgostos familiares muito comuns hoje.

Ela pode até ter nascido na Era Vitoriana, em setembro de 1890, mas pouco se comportava como alguém desta época. Agatha Christie pode ser considerada um ícone do feminismo.

Ainda jovem, se jogou nos esforços da I Guerra. Foi treinada para ser enfermeira e se alistou no Destacamento de Ajuda Voluntária. No hospital de Torquay, ela atendia os feridos e limpava as amputações.

Depois da guerra, ela descartou uma série de homens “apropriados” para ficar com o coronel Archie Christie, quem, de acordo com Farthing, era um homem louco, mau e perigoso. Archie era piloto, motociclista e sabia dançar. Isso atraiu Agatha.

Esqueça a imagem de aposentada. Durante sua juventude, Agatha era dona de seu corpo, luxuriosa e gostava de se mexer – apesar do sedentarismo natural da carreira que escolheu.

Ela andava de patins, mergulhava, dançava e, com Archie, foi uma das primeiras pessoas da Inglaterra a justamente surfar.

Em 1928, porém, eles se divorciaram e Agatha se viu vivendo como uma mulher independente. Ela apostou tudo nisso e se transformou em uma máquina de escrever.

Forte, inteligente e observadora, essas são as palavras que a descrevem, assim como suas heroínas. Sim, são clichês do caráter feminino, mas ela também criou assassinas e detetives em suas histórias, como Lucy Eylesbarrow, de A testemunha ocular do crime. São mulheres cuja intuição e desenvoltura sobressaem.

Até Miss Marple é subestimada. A doce senhora tem uma visão afiada e volta seus olhos a homens que, condescendentemente, explicam a ela, ao modo deles, as evidências, antes de superá-los. “Intuição é como ler uma palavra soletrá-la”, falou em Assassinato em Vicarage.

Como suas heroínas, Agatha Christie era uma mulher moderna, robusta, que se recusou a ser intimidada com o que a vida reservou para ela. É esta a Agatha que Farthing quer seja conhecida.

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