Segundas Intenções de Julho

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No sábado, 8 de julho, a Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) promoveu uma conversa com os escritores Evandro Affonso Ferreira e Luiz Roberto Guedes no programa Segundas Intenções. O bate-papo teve mediação do jornalista Manuel da Costa Pinto, aconteceu no espaço central da biblioteca, a Oca, às 11 horas. No encontro, os autores falaram de suas obras e referências literárias.

Evandro Affonso Ferreira é autor romances como Minha mãe se matou sem dizer adeus, que ganhou o Prêmio APCA Melhor romance do Ano; O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, vencedor do Prêmio Jabuti Melhor romance do Ano e Não tive nenhum prazer em conhecê-los, ganhador do Prêmio Bravo! Melhor romance do Ano.

Luiz Roberto Guedes é poeta, escritor, tradutor e letrista. A autor de livros infantojuvenis como Treze noites de terror, Anjos do mar, Meu mestre de história sobrenatural. Para gente grande, publicou Calendário Lunático – Erotografia de Ana K (poesia), a novela histórica O mamaluco voador, e os contos de Alguém para amar no fim de semana (2010) e Miss Tattoo_ Uma quase novela (2016). Letrista sob o pseudônimo de Paulo Flexa, tem parcerias com os compositores Luiz Guedes & Thomas Roth, Beto Guedes, César Rossini, Madan e Ivaldo Moreira.

Evandro disse que tinha o costume de compilar palavras exóticas, como as que dão título a seus primeiros livros: Grogotó! (2000), Araã! (2002), Erefuê (2004) e Zaratempô! (2005). Ele chegou a ter uma lista com 3 mil palavras, mas disse que este recurso o deixava refém da sonoridade. O ponto de mudança veio com Minha mãe se matou sem dizer adeus, lançado em 2010, aclamado pela crítica. Assim ele passou a escrever uma literatura marcada por trazer elementos da mitologia e construir protagonistas à margem da sociedade contemporânea, a exemplo do que fazia Nelson Rodrigues. “Antes me preocupava em dar vida à palavra. Agora meu tema é a morte do homem”, disse o autor.

Luiz também dá muita atenção à linguagem. Na novela histórica O mamaluco voador, considerada pela crítica sua obra mais ambiciosa, o autor se aproxima do português quinhentista. Ele usou fragmento reais das cartas de padres jesuítas como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta para retratar de maneira irônica os primórdios da colonização do Brasil.  Criou a lenda de um noviço chamado Anrrique Braz, que conseguia voar como um pássaro. No texto, usa o português castiço como uma impostura, e combina uma trama fictícia com eventos históricos. “É um acerto de contas com o repertório indigenista de José de Alencar, autor de quem gosto muito. Descrevo também a catequização dos nativos, quando se começou um massacre cultural que dura até hoje”.

Sobre o processo de trabalho, Evandro disse que compõe seus textos à mão e depois passa para o computador. Gosta de escrever em locais públicos, como padarias e cafés. Fica observando as pessoas ao redor, o que dá tom e ideias para seus personagens e tramas. Esse diálogo invisível se torna evidente em seus livros mais recentes, combinado com uma extensa pesquisa nas obras de Franz Kafka, Sigmund Freud, Erasmo de Roterdã e Sófocles – só para citar alguns.

De Kafka, ele conta uma pequena anedota. A lenda diz que o tcheco recebia as visitas com uma espada nas costas. Era uma brincadeira que demostrava um certo vigor e potência. Evandro tenta emular este sentimento, e mesmo em locais barulhentos, busca o máximo de concentração para estar dentro da história e sofrer com aqueles personagens. Ou seja, só consegue escrever com uma espada nas costas.

Na sua vez, Luiz falou de sua obra em poesia, com foco nos limeriques. Esta é uma forma tipicamente anglo-saxã de poemas com conteúdo lascivo e libidinoso. Neste gênero, ele destaca Calendário Lunático – Erotografia de Ana K, livro publicado nos anos 200 pela Ciência do Acidente. Nele, lança mão de 28 poemas que descrevem de maneira pulsante e erótica a relação com uma ex-namorada. A amada nunca voltou, o que segundo ele, fez bem para a sua literatura.

O autor paulista também citou grandes amigos que serviram de inspiração como o poeta paulista Glauco Mattoso, o escritor paranaense Jamil Snege e poeta cubano José Kozer, autor que ele traduziu para o português. Fala com especial carinho de Flávia Muniz, escritora e editora que o convidou a escrever para o público infantojuvenil. Foi um divisor de águas na sua carreira e hoje ele soma mais de uma dezena de livros voltados para este público. Gosta especialmente do gênero fantástico e do terror, uma escolha que para ele foi natural.

Quando perguntado, disse que obra preferida é a mais recente, A saga do gato negro, publicada este ano pela editora Sesi-SP. O livro é ambientado na terra de seus pais, Salvador, que serve de palco para uma história de suspense sobre um grupo de moleques que enfrentam os capangas de uma terrível organização internacional para proteger uma relíquia de século XIX, um pergaminho que revela as raízes brasileiras e expõe a opressão racial dos negros na nossa história.

Nisso ele tem em comum com Evandro. O autor mineiro também prefere seu último romance, Nunca houve tanto fim como agora, lançado no mês passado. A trama é sobre cinco personagens abandonados que vivem (ou sobrevivem) nas ruas de São Paulo. Um deles é adotado e – anos mais tarde – relembra dos colegas que não tiveram a mesma sorte. “Escrevi treze livros para chegar a este. É o meu Lavoura arcaica”, referindo-se a obra mais celebrada de Raduan Nassar.

No fim do programa, Manuel perguntou aos dois sobre a relação deles com a cidade de São Paulo. Luiz falou primeiro, não só por ser paulistano da zona leste. Foi também organizador de Paixão por São Paulo, Antologia poética paulistana, onde selecionou 104 poemas de 72 poetas, com textos publicados entre 1921 a 2003. A obra foi encomendada para o aniversário de 450 anos da cidade, celebrado em 2004. “Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Ela te oferece muitas coisas, mas exige que você tenha boas condições financeiras, o que nem sempre é possível para um escritor”.

Já Evandro contou que em a cidade lhe permitiu abrir dois sebos – espaços que foram importantes polos de cultura nos anos 90. “São Paulo me deu tudo que tenho: a palavra”. Luiz retrucou e disse que autor já veio de Araxá (MG) com ela. Ao que Evandro replicou: “não, de Minas trouxe apenas o pão de queijo e o doce de leite”, finalizou, para a risada de todos.

Confira fotos da atividade:

 

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