Segundas Intenções com Xico Sá

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O aniversário da Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL), que aconteceu neste sábado, 16 de dezembro, teve um Segundas Intenções com o escritor, cronista e jornalista Xico Sá. O encontro teve mediação do curador Manuel da Costa Pinto e abordou a infância e adolescência na cidade de Crato (CE), a formação em jornalismo em Recife, a mudança dele para Brasília, cidade que ensinou os meandros da cobertura política e a sua vinda para São Paulo, onde trabalhou em publicações como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo. Falou também da sua literatura, que é apontada como singular por muitos críticos. “Eu sou mais leitor do que escritor. Um leitor que ambiciona escrever bons livros. Ler é o meu prazer. Acho que Dostoiévski tem um estilo. Eu tenho um jeito de fazer as coisas”, confessa.

Começou como cronista na Revista da Folha, a convite do editor Matinas Suzuki Jr. Ali, teve espaço para diagnosticar, sempre de maneira irreverente e hiperbólica, os tipos urbanos da capital paulista, falando de amor, relacionamento, sexualidade, vida conjugal, futebol e outros temas. “Desde 1995 escrevo semanalmente para a imprensa. E enveredei por essa crônica que aborda as diferenças entre o homem antigo e o homem moderno de maneira bem irônica”.

Falou um pouco dos seus escritores favoritos, como Graciliano Ramos. Conta o impacto do romance Vidas secas em sua vida e se diz influenciado pela linguagem seca e direta do autor alagoano. “Pela primeira vez eu estava dentro do livro. Eu não era só o leitor, estava no relato, que contava a minha história, a vida do sertão e das pessoas daquela região”.

Passou então a perseguir uma carreira literária, mas encontrou inúmeras dificuldades. Na década de 1980 ainda não existia este mercado de palestras, oficinas e festas literárias, um ecossistema que financia a vida de um autor. Embora escritores brasileiros como Dalton Trevisan, Ivan Ângelo, Luiz Vilela e Rubem Fonseca ocupassem o topo das listas dos mais vendidos, eles tinham que trabalhar em outras atividades. “Queria me tornar escritor, mas só o Jorge Amado vivia disso. Os outros trabalhavam no jornalismo ou em repartição pública”.

A escolha dele foi a redação. Começou nas editorias de Esportes e Polícia, o típico espaço para aprendizado de um ‘foca’, ou seja, um iniciante na profissão. Com o tempo, circulou por outros assuntos, como cultura e política. “Já pertenci a este jornalismo dito sério, engravatado”, brinca.

Crédito: Edson Lopes Jr.

Crédito: Edson Lopes Jr.

Na Folha de S. Paulo, integrou a equipe de reportagem que buscava a localização de PC Farias, tesoureiro da campanha do presidente Fernando Collor e o inimigo público nº 1 do país. Para descobrir o paradeiro, ele praticamente se mudou para Maceió, onde contou com o auxílio de inúmeras fontes. O resultado dessa cobertura foi uma entrevista com o fugitivo em Londres e Bangkok.

É seu desejo publicar futuramente um romance que una a apuração jornalística e a literatura, aproveitando essa passagem na reportagem policial, que foi palco para outros grandes autores como Nelson Rodrigues. “Ainda quero fazer algo nesse sentido. É uma grande dívida”.

Mas antes, ele pretende lançar um novo romance, que tem título provisório de A linha fatal. A trama é sobre um goleiro em fim de carreira que ao longo dos 90 minutos de um jogo relembra episódios de sua vida e o recente rompimento com a esposa. O livro traz este contraste entre a narrativa do campo e os conflitos do personagem.

Este será o segundo romance. O primeiro foi Big Jato, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013, cuja trama é sobre um garoto que vive sob duas grandes influências: um pai severo e trabalhador e um tio folgado, libertário e anarquista. É um relato autobiográfico, onde junta memórias e faz um pequeno retrato de sua juventude no sertão. Estão lá os primeiros encontros com o amor e o rock, as paisagens, as pessoas que encontrou e as relações familiares. A obra foi adaptada para o cinema pelo diretor pernambucano Cláudio Assis e tem Matheus Nachtergaele no elenco.

O Segundas Intenções também enveredou por outros assuntos como o futebol, a boemia, a psicanálise, a sua rotina e seu processo de composição e escrita, sua participação em programas televisivos e a recente paternidade – a filha Irene nasceu em fevereiro deste ano. “Agora tenho outra perspectiva, essa menina vai trazer outra voz para minha cabeça de escritor”, comentou.

Além de contar muitas histórias e ler crônicas, ele participou da campanha da biblioteca para angariar novos sócios. As peças gráficas vão ser veiculadas até o fim de dezembro nas redes sociais. A ideia da BVL é incentivar a criação da carteirinha, que traz inúmeras vantagens, inclusive a de poder emprestar livros. O Xico Sá fez a dele.

Crédito: Edson Lopes Jr.

Crédito: Edson Lopes Jr.

“Eu gosto muito de participar desses bate-papos, mas é especial quando é na biblioteca. A biblioteca de Juazeiro do Norte foi responsável por eu ter lido Angústia, Caetés e Infância, de Graciliano ou a literatura brasileira dos anos 1970, autores como Rubem Fonseca e Ignácio de Loyola Brandão. Eu me criei numa área rural, meu pai era um pequeno agricultor, a gente vivia numa casa sem livros. Foi a biblioteca que me fez leitor e me deu este ambiente de livros. E se você quer ser leitor, não tem desculpa. A biblioteca é um farol. Agradeço muito o mundo das bibliotecas”.

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