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Saiba mais sobre a marca do indianismo na literatura brasileira

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Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Arquivo pessoal.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Arquivo pessoal.

Conduzida pelo professor Fábio Martinelli Casemiro, a oficina online Indianismos na Literatura Brasileira teve início em 5 de junho e traçou panorama da presença, destacou importância e assinalou marcas da cultura indígena nos textos literários. A primeira aula levou os alunos dos primeiros registros sobre a natureza no nosso território até conteúdos nos quais a voz desses povos está impressa no papel de protagonistas de suas próprias histórias.

A relação de Casemiro, poeta, músico e doutor em Literatura pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), é forte. Em sua pesquisa de pós-doutorado no curso de Letras da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), ele estuda representações de natureza na literatura brasileira e essa paixão pelo assunto só tem crescido. Casemiro conta que, diante do que tem coletado, vem compreendendo que essa presença – da natureza – está constantemente atrelada às manifestações das culturas popular, negra e indígena. E foi esse o caminho que o levou a estudar também – como frisa – a literatura indígena.

O professor ressalta que, com os textos, observamos ainda como se dão as estratégicas políticas que nascem das relações estabelecidas a partir da presença dos colonizadores diante dos povos originários, e até da migração forçada do tráfico vergonhoso de escravos africanos para o Brasil. Como os indígenas aparecem – ou não – em nossa literatura diz muito sobre o olhar para o outro e como nos reconhecemos em nossas multiplicidades e diferenças, acrescenta.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Reprodução.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Reprodução.

O professor lançou provocações sobre quem são e como estão retratados os povos originários na história da literatura brasileira. E demonstrou que não há uma só resposta para esse questionamento. Segundo Casemiro, muitas vezes nem nos atentamos à forma de identificação e seguimos lendo conteúdos que mostram esse cenário povoado pelos indígenas, mas sem a análise e reflexão aprofundadas e necessárias.

Como apontou em aula, os povos indígenas são retratados, até o século XVII, em geral, em textos épicos (grandes narrativas heroicas que tem nos colonizadores seus protagonistas) ou informativos (verdadeiros tratados descritivos de costumes e características da terra) ou ainda em religiosos (com o indígena como “alvo” de conversão). Para reforçar a afirmação, ele citou o crítico literário Antonio Cândido, em conteúdo extraído do livro “Literatura e sociedade”: “poderíamos dizer que as manifestações literárias, ou de tipo literário, se realizaram no Brasil, até a segunda metade do século XVIII, sob o signo da religião e da transfiguração”.

Para compreender melhor o que se deu entre os séculos XVII e XVIII, Casemiro compartilhou referências como as obras “Prosopopeia”, de Bento Teixeira (de 1601); “Uraguai”, de Basílio da Gama (de 1769); “Caramuru”, de Frei Santa Rita Durão (de 1781); e “Vila Rica”, de Cláudio Manuel da Costa (de 1773). Ao detalhar alguns trechos dos títulos, fez inclusive alusão ao longa-metragem “Caramuru – A invenção do Brasil”, dirigido por Guel Arraes, com Selton Mello e Camila Pitanga no elenco. Ao passar as explicações para o século XIX, o professor destacou textos de Gonçalves de Magalhães (“A confederação dos tamoios”) e Gonçalves Dias (“Juca Pirama” / “Os Timbiras”). Segundo Casemiro, dentro do romantismo da época, é possível observar as várias subtendências da descrição de indígenas, mas sempre com a característica de enaltecimento da nação; elege-se o indígena como herói da fundação da raça, do caráter brasileiro. Ainda nesse período, os romances de José de Alencar são bastante lembrados como “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”. “O Guêsa errante”, de Sousândrade, também foi citado pelo professor que avançou ainda em temas relacionados à Semana de 22, ao Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, e “Magma”, livro de poemas de Guimarães Rosa, de 1936.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Arquivo pessoal.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Arquivo pessoal.

A aula contou ainda com as citações de autores contemporâneos que vivem, tratam ou retratam o tema como Kaká Werá, Ailton Krenak e Eliane Potiguara, entre outros. Como uma espécie de lição de casa, Casemiro deixou para os alunos a indicação da leitura do conto “O meu tio o Iauaretê”, de “Estas histórias”, de Guimarães Rosa. Mas fez a ressalva que, para uma melhor compreensão, optassem pela leitura disponível no YouTube feita pelo ator Lima Duarte. Por que não experimentar estas e outras indicações do professor em aula e construir suas próprias reflexões a partir do tema?

A oficina Indianismos na Literatura Brasileira, que faz parte do projeto Literatura Brasileira no XXI, realizada em parceria com a UNIFESP, vai até 27 de junho, com encontros aos sábados, das 10h às 13h. Os textos desenvolvidos nas aulas (artigo, ensaio, reportagem, dissertação ou até poesia, como salientou o professor) a partir das reflexões nas atividades, poderão ser vistos em breve no site da iniciativa.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Reprodução.

Fábio Martinelli Casemiro. Foto: Reprodução.

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