Ricardo Azevedo no Segundas Intenções

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Com a Oca cheia de crianças, o Segundas Intenções de outubro na Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) marcou de maneira bem especial o mês dos pequenos (e da leitura). E o convidado do programa permanente tinha tudo a ver com esta temática: Ricardo Azevedo, um dos mais premiados escritores do gênero infantojuvenil. O evento aconteceu no sábado, 14, às 11 horas, com a moderação do curador e jornalista Manuel da Costa Pinto.

Como em todo encontro, Ricardo falou de sua trajetória literária e destacou obras, inspirações e aspirações. Contou também também um pouco do seu processo de pesquisa, especialmente as que versam pela cultura popular. Costuma dizer que aprendeu muito lendo contos populares, que contém uma sabedoria e uma articulação muito sofisticada de linguagem.

A outra vertente de sua longa bibliografia – já publicou mais de cem livros infantojuvenis, cerca de 80 disponíveis em catálogo – é totalmente autoral. Não à toa que o autor e ilustrador paulista ganhou tantos prêmios, entre eles, quatro vezes o Jabuti: Alguma coisa (1988), Maria Gomes (1990), Dezenove poemas desengonçados (1998) e A outra enciclopédia canina (1998) e Fragosas brenhas do mataréu (2013). O reconhecimento também é internacional: já foi editado na Alemanha, Portugal, México, França e Holanda.

Confira depoimentos do autor na BVL:

 

Crédito: Equipe SP Leituras

Crédito: Equipe SP Leituras

 

O primeiro contato com os livros —>

Eu tive sorte de nascer numa casa com muitos livros, minha família tinha uma biblioteca muito grande, o andar de cima era só de livros. Meu pai era professor de geografia na USP, mas ele e minha mãe nunca me indicaram uma leitura. Eu escolhia sozinho e lia muito. Ainda criança, tínhamos uma coleção chamada O tesouro da juventude, com 18 volumes. E o que mais me interessava era de contos, que li e reli inúmeras vezes. Acredito que se me aproximei dos contos populares, a semente foi plantada lá.

Um destes contos, O Macaco e Velha, que eu fiz um livro depois, eu li bem garoto numa versão censurada. Naquela época eu já sacava que desfecho estava errado. Quando eu fui pesquisar mais e ler gente como Câmara Cascudo, fui vendo como os contos populares mudam ao longo do tempo. As coletâneas mais recentes estão amenizando o tom daquelas histórias, o que acho ruim.

Na juventude, também não se tinha essa produção editorial de hoje. Eu li Monteiro Lobato e um ou outro autor.  Uma coisa popular era a revista Seleções Reader’s Digest, que fazia uma seleta de cinco romances com algum tipo de redução. Eu nunca esqueço de ter lido nela o texto A Leste do Éden, do John Steinbeck. Achei muito bacana. Mas depois eu fui ler a íntegra e parei de de ler a Seleções. Me dei conta que aquele troço era um engana-trouxa. E passei para os livros adultos.

 

Quando começou a escrever —>

Eu não me adaptei a escola, repeti duas vezes, tinha problemas de comportamento. Eu era mau aluno, mas tirava boas notas em redação, aquelas notas me davam algum alento. Pensei em trabalhar com texto, ser jornalista e não escritor. Comecei a fazer redações por conta própria, independente do professor pedir. Achei bacana inventar uma história, motivado certamente pelas boas notas . Escrevi aos 16 ou 17 anos o livro O homem no sótão. E comecei a escrever por minha conta até chegar aos 30 anos, quando publiquei O peixe que sabia cantar. Soube que a editora Melhoramentos estava procurando novos autores, mandei o material e eles gostaram.

Crédito: Equipe SP Leituras

Crédito: Equipe SP Leituras

 

Primeiro emprego e formação profissional —>

Eu queria fazer jornalismo e prestei o Cecea, exame admissional da época. Mas a USP não tinha curso noturno e eu queria trabalhar. Então eu resolvi fazer o cursinho preparatório na Faap, voltado para comunicação. Aí comecei conviver com os alunos do curso de jornalismo, a classe era do lado, ficava vendo as aulas e vi que era fraco. Resolvi fazer artes plástica meio que do além, mas sabia que era um curso mais estruturado. Tive aula com Vilém Flusser e Herbert Duschenes, foi um privilégio ter contato com estes professores.

Continuei escrevendo e ao mesmo tempo comecei a desenhar enlouquecidamente. Fui trabalhar como estagiário numa agência de propaganda no departamento de arte. Falei com o diretor de criação que também escrevia e ele me botou para trabalhar também como redator. Foram 11 anos trabalhando na arte e redação, uma grande experiência de vida. Aprendi que posso tratar de assuntos pelos quais não tenho interesse, escrever de maneira direta, concisa e que traga alguma atenção de quem lê. Foi um período muito fértil, de formação profissional e de método de trabalho, meu deu a disciplina. Isso foi até 1983, quando passei a fazer só livros, como escritor e ilustrador, já que tinha um bom conhecimento de produção gráfica.

 

Sobre a infância da nova geração —>

Tem alguns pontos que unem o mundo adulto e o das crianças: se apaixonar, ter medo, ter dor física e muitos outros. Acho que vivemos num tempo que de tanta tecnologia que temos a possibilidade de viver somente no mundo virtual. Ficamos o dia inteiro com o telefone na mão. Eu não tenho como julgar isso, não tenho segurança de falar, é muito recente. Mas qualquer coisa que te aliene da vida social não me parece bom. Porque se a pessoa está alienada, está enganada. Ela depende de outras pessoas, ela está neste mundo para conviver com um monte de gente. E todos vamos morrer. E isso nos une, ao contrário de assustar. Faz com que a gente tenha piedade pelo outro.

 

Autores novos ganhando visibilidade e espaço —>

Muitos autores novos já têm diversos livros publicados sem passar pelo crivo de um editor. Quando eu tinha 17 anos, não tinha pretensão de ser escritor. Hoje têm muitos jovens escritores que se acham o Kafka, sem ter lido o Kafka. Acho que eles têm que ter calma, se situar, ver o que está se fazendo dentro da área que eles estão interessados. E eu não vejo eles, fazendo isso, ignoram o que está em volta. É a não-cultura generalizada.

 

Canção Popular —>

Tem alguns temas importantíssimos e fundamentais na vida como envelhecimento, morte, comida, festa, solidariedade. Esses temas aparecem direto nos sambas e desaparecem no discurso culto. É raríssimo você encontrar músicas sobre essas coisas na chamada MPB. O samba é uma crônica que traz temas da vida humana concreta, que faz você perceber que a vida é complexa interessante. É uma coisa que para a gente pensar.

 

Em breve vamos atualizar este post com a gravação em vídeo na íntegra do bate-papo.
O próximo
Segundas Intenções na BVL acontece no dia 11, com o autor Santiago Nazarian. Compareça!

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