Mutarelli na BVL

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Neste sábado, 11 de abril, o escritor Lourenço Mutarelli esteve na Oca da Biblioteca Parque Villa-Lobos para falar sobre seu trabalho e conversar com o público dentro do programa Segundas Intenções. O bate-papo foi conduzido pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto.

Mutarelli se formou na Faculdade de Belas Artes e, no início da carreira atuou como quadrinista. Trabalhou na parte cinematográfica da Mauricio de Sousa Produções, como intercalador e cenarista. Em 1986, saiu da empresa e, como não conseguia publicar seus trabalhos, teve vários subempregos, segundo o próprio Mutarelli, como bedel, motorista, empacotador e organizador de cupom em farmácia, até animador de festa infantil.

“Eu montava todo o cenário da festinha, carregava e descarregava o carro, me vestia com chapéu coco e suspensório e fazia o Papai Dálmata, um fantoche. Numa dessas festas, tinha um tiozinho tomando whisky que ficava falando, Olha o palhacinho, Olha o palhacinho, Olha o palhacinho, Olha o palhacinho… olha o que não se faz pra levantar um troco!”, falou.

Em um certo momento, Mutarelli se cansou de imagens. Nesta fase, tinha acabado de ler Capão pecado, de Ferréz, e quis evocar a imagem através da palavra. “Um dia minha mulher foi viajar, num feriado, estava sozinho e, em cinco dias, escrevi O cheiro do ralo. Para fazer um livro de quadrinho, eu levava um mês para fazer o roteiro, mais um ano mais ou menos para os desenhos, e mesmo assim trabalhando 12 horas por dia. Não tenho mais fôlego pra isso.”

Sobre este salto, Manuel justamente notou que Mutarelli se afastou deste mundo em um momento em que o HQ começou a ganhar prestígio editorial. “Ainda não tem muito prestígio, mas eu agora faço quadrinhos para mim, experimentais e cair na literatura foi muito bom, porque escrever é a forma mais profunda de pensar algumas coisas, me torna uma pessoa melhor”, explicou.

Apesar disso, seu próximo lançamento, O grifo de abdera, terá uma parte encartada que é totalmente em quadrinhos, mas na voz de um dos personagens. “Eu fiz um desenho uma vez, gostei muito do resultado e não quis descartar, aí coloquei nesse livro, que aliás faz uma brincadeira com vários trabalhos meus, investiga o Mutarelli como se ele fosse uma fraude.” O lançamento está previsto para junho deste ano.

Após o lançamento de sua primeira obra literária, em 2002, logo foi lida pelo escritor Marçal Aquino e, em menos de um mês, Mutarelli já estava negociando uma adaptação para o cinema. Aliás, além das adaptações (já são três livros – O cheiro do ralo, O natimorto e A arte de produzir efeito sem causa), Mutarelli também já atuou como ator. No momento, acabou de filmar O escaravelho do diabo, baseado no livro de mesmo nome.

“Foi demais, eu levo tiro, uma viga cai na minha cabeça e dispensei o dublê, porque ele era meio grande, não ia parecer que era eu”, comentou.

Uma das últimas perguntas foi em relação ao livros que Mutarelli tem lido ultimamente. Ele revelou que leu pouco os clássicos, mas que adora descobrir autores. Por sugestão do também escritor Antonio Prata, conheceu Kurt Vonnegut, a quem chama de amigo. “É uma leitura difícil, tem que ficar atento a cada linha, mas ele me faz rir em voz alta! Quando você acha que ele vai te pegar numa cena completamente densa, ele coloca uma piadinha de salão, boba, que te quebra. Eu considero ele meu amigo, tenho até uma foto dele num porta-retrato… dele e do Tony Ramos!”

O próximo Segundas Intenções acontece no dia 9 de maio, com Ferréz.

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