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Fusão entre história e ficção é tema de oficina

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A criação literária tem como palco, várias vezes, momentos históricos. Esta fusão é o tema da oficina Memória histórica e narrativa ficcional, marcada para os dias 26 e 27 de maio, das 13h às 17h, que levará os participantes a explorar a construção textual, com análise de trechos de livros e fatos.

A obra O país das luzes flutuantes, contemplada pelo ProAC Produção e publicação de obras sobre patrimônio histórico e cultural material e imaterial no Estado de São Paulo – da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, é o ponto de partida da atividade. De autoria de Marco Catalão, o romance tem como base a imigração japonesa para a região do Vale do Ribeira e o enredo permeia fatos históricos, tradições e heranças culturais trazidas do Japão enquanto se desenvolve a amizade entre um menino brasileiro e o senhor chamado Yasuro.

O poeta, dramaturgo e ficcionista Marco Catalão conta um pouco sobre a construção desse tipo de narrativa e deixa  indicações de leitura para quem se interessa pelo tema. Confira!

Quais são os principais elementos da transformação de fatos históricos em narrativas ficcionais?
Como não têm um compromisso obrigatório com a verdade histórica, as narrativas ficcionais podem condensar os fatos, utilizar traços de várias pessoas para compor uma única personagem, mudar a ordem temporal dos eventos, inserir elementos fantasiosos e promover as mais diversas alterações nos fatos considerados verdadeiros. O objetivo não é falsificar os acontecimentos históricos, mas torná-los mais significativos e mais intensos, a fim de que os leitores os revivam em sua imaginação.

Este tipo de narrativa é uma forma de aproximar o povo da sua identidade cultural?
Mais do que isso: as narrativas participam do processo de elaboração dessa identidade, que está em constante transformação. Por exemplo, ao trazer à luz narrativas sobre os descendentes de japoneses no interior de São Paulo no romance O país das luzes flutuantes, meu objetivo não foi apenas divulgar esses fatos pouco conhecidos fora da comunidade nipônica, mas também fazer com que os leitores se sentissem próximos dessas pessoas, entendessem suas vidas não como meras abstrações, mas como experiências palpáveis. As complexidades das experiências singulares raramente têm espaço nos livros de História; a ficção permite que conheçamos as pessoas de forma mais íntima e mais intensa. E a partir do momento em que nos identificamos com uma personagem, nossa própria identidade se modifica.

 Na construção deste tipo de obra literária existe um limite entre o ficcional e o histórico?
O limite varia de acordo com as intenções (e as habilidades) dos autores. Há obras como a fascinante trilogia Wolf Hall, de Hilary Mantel, que seguem muito de perto os fatos históricos. Nesse caso, a romancista se serve da ficção para preencher as lacunas que os historiadores não podem preencher: o que Thomas Cromwell pensava sobre Henrique VIII ou Ana Bolena? É uma pergunta que só pode ser respondida por meio da ficção. Em outros casos, como no esplêndido O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, os fatos históricos são um pano de fundo importante, mas não limitam o aparecimento e a ação de figuras sobrenaturais — que, longe de falsificar a realidade, nos ajudam a vê-la de forma mais precisa.

Poderia indicar 3 obras literárias construídas em cima de momentos históricos que possam servir de inspiração?
Há muitas obras que poderiam ser mencionadas, mas além dos dois livros que eu já citei, gostaria de indicar A festa do bode (disponível no acervo da BVL), de Mario Vargas Llosa, baseado na ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana, Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, que recria a vida do imperador romano, e Cavalos de Cronos, de José Francisco Botelho, que articula narrativas de diversas épocas e lugares em prosa e verso.

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Oficina online Memória histórica e narrativa ficcional, 26 e 27 de maio, das 13h às 17h. Com Marco Catalão. Inscrições em bvl.org.br/incricao,
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