Duas atividades literárias na BVL

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Neste sábado, 12 de agosto, a Biblioteca Parque Villa-Lobos (BVL) promoveu duas intervenções sobre literatura, texto, criatividade, sociedade e dezenas de outros aspectos. Às 11 horas, o programa mensal Segundas Intenções recebeu o premiado romancista Michel Laub. Às 14 horas, foi a vez do Curso de Escrita – Contos para o próximo milênio, com o escritor e jornalista Ronaldo Bressane.

Não por coincidência, Laub também tem formação de jornalista e disse que está se livrando deste ‘vício’ aos poucos, “um dia de cada vez”. Já publicou sete romances, como Diário da queda (2011), que teve direitos vendidos para o cinema, e O tribunal da quinta-feira (2016), o mais recente. Seus textos foram editados em 12 países e em nove idiomas. A mediação do bate-papo foi do curador Manuel da Costa Pinto.

No encontro, o escritor fez um panorama de sua obra e ressaltou alguns aspectos em comum. Por exemplo, escreve textos do gênero ‘romance de formação’, ou seja, quando os personagens estão investigando e criando a sua própria identidade – normalmente homens de meia-idade que examinam episódios vividos na juventude.

Gosta também de pontuar suas obras com a presença de fatos históricos que são importantes para as tramas pessoais dos narradores. “A literatura é diferente do ensaio histórico, não necessita de tanta precisão. Posso contar uma história a partir do ponto de vista de um indivíduo, coisa que o historiador não consegue fazer”.

Manuel também apontou um outro padrão: em seus últimos livros, doenças como depressão, mal de Alzheimer e Aids estão presentes como elementos determinantes.

Assim, Laub foi falando de obra por obra – desde o primeiro livro de contos Não depois do que aconteceu, lançado em 1998. Leia uma bibliografia comentada feita pelo blog da Estante Virtual —> https://goo.gl/8VhkcU.

“Há 20 anos não tinha uma prática com a escrita e fui descobrindo por acaso uma vocação. Naquela época não tinha nem experiência, técnica ou capacidade para escrever os livros que saíram mais recentemente. A maturidade me fez escrever obras melhores tecnicamente, mas de alguma maneira também perdi um pouco daquele impulso inicial”, analisa.

No recente O tribunal da quinta-feira aborda a Aids, a homossexualidade e de como seria se uma conversa privada se tornasse pública, o que denota um aspecto negativo das redes sociais. Este espaço virtual é semelhante a uma corte suprema – o vazamento de e-mails começa no domingo e na quinta-feira a vida do narrador está completamente diferente.

“Vejo agora o mesmo discurso que se tinha na época da epidemia de Aids dos anos 1980 e 1990. É um fenômeno que julga comportamentos e está relacionado com tolerância e intolerância. Atualmente, o poder das redes é tão grande quanto o da mídia. Mas a rede tem futuro, a mídia tem um passado. A internet tem esse lado sombrio, monolítico, literal, onde as pessoas têm certeza absoluta das coisas, usando fórmulas simples e conceitos simplificados, assim como a publicidade. É o oposto da literatura”, contextualiza.

Já atividade com Bressane é um laboratório de escrita criativa e de leitura e acontece entre os dias 12 de agosto a 16 de setembro. As aulas são estruturadas sobre os livros Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino, e Formas breves, de Ricardo Piglia.

Ele explica que Piglia foi um catalizador de duas correntes da literatura argentina: a de Jorge Luis Borges, um antiperonista e militarista, e Roberto Arlt, que tinha um texto visceral e um forte envolvimento social. Na visão do oficineiro, Piglia junta essas duas visões em romances policiais e meta-literários, a exemplo de Plata quemada, que conta a história de um assalto fracassado, um de seus maiores sucessos.

Além de Piglia, Bressane cita uma extensa bibliografia, como Anton Tchekhov, Franz Kafka, Herman Melville, Katherine Mansfield, Samuel Beckett e Vladimir Nabokov, entre outros. “Atualmente, ninguém lê porra nenhuma. Uma dica é que 75% do trabalho de escrever é ter um título bom. Os outros 25%, invista na primeira frase”, brincou. “Talvez vocês não se tornem escritores, mas penso que podem se tornar melhores leitores”.

O biólogo Humberto Conzo Jr. já fez outras oficinas literárias e gostou do que viu. “Estou acostumado com esse esquema de aulas teóricas e acho bom que se tenha exercícios para praticar”. A estudante de letras Luciana Gonçalves achou ótima a iniciativa da BVL. “O Bressane tem muito conteúdo e acho que a oficina pode tirar alguns vícios de escrita”.

Confira uma galeria de fotos das duas atividades —>

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